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Entrevista a Hipólito Yrigoyen

Documento histórico. Realizada por Luis Pozzo Ardizzi para "El Hogar", 13 de junho de 1930.

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Imagens digitalizadas da notícia recuperada (Clique para ampliar e navegar).

Página 1: Yrigoyen
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Página 2: Yrigoyen
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Página 3: Yrigoyen
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Transcrição Completa

Fonte Bibliográfica:
Publicado originalmente em: El Hogar, N° 1078, 13 de junio de 1930.
Recuperado de: Página/12, Especiales, Sábado 7 de enero de 2006.

YRIGOYEN

Por Luis Pozzo Ardizzi

Até a presente data, todos os "historiadores" e os "bajuladores" ('adulones') que Hipólito Yrigoyen adquiriu em decorrência de sua segunda presidência nunca quiseram revelar como é o chefe de Estado na intimidade.

Eu, cidadão apolítico, livre do preconceito dos partidos, que jamais solicitei emprego público e que não conheço Yrigoyen pessoalmente, revelarei alguns "detalhes" interessantíssimos de sua vida privada, perfeitamente documentados para o deleite dos que experimentam o prazer da revelação dos mistérios...

Não recordarei as casas em que Yrigoyen viveu antes de se mudar para a atual residência — Brasil 1039 — pois empregaria tempo e espaço em detalhes sem maior importância na vida do Presidente da República.

Yrigoyen encontra-se acompanhado ali por sua filha Elena — a menina Elena ('la niña Elena'), para os íntimos — e por outra senhora mais ou menos da mesma idade.

O chefe de Estado dorme num quartinho no centro da casa, arrumado com simplicidade, no qual se destaca uma cama de solteiro de bronze, e de cuja cabeceira pende um crucifixo.

Um representante da polícia que há muito tempo presta serviço na presidência, e que também vai à casa de Yrigoyen, me fala da vida austera do homem que rege os destinos do país.

—Pela manhã, a porta da rua é aberta logo cedo, mas as persianas das varandas nunca são tocadas. O presidente — acrescenta — levanta-se cedo e bebe a sua infusão tradicional ('toma mate'). Creio que a filha lhe lê os jornais.
—¿...?
—Sim. Não se admire. À casa da rua Brasil chegam todos os jornais da capital; e ao dizer todos, incluo os jornais estrangeiros que aqui são editados.
—¿...?
—Eu não sei quem domina idiomas na casa... mas o certo é que os jornais estrangeiros chegam de manhãzinha...
—¿...?
—No inverno, recolhe-se cedo. Depois das 21h a guarda policial se retira... Mas no verão gosta de tomar a fresca, e geralmente se instala no pátio numa poltrona e depois... manda algum homem de sua confiança em busca de sorvetes de creme... Ah, ele adora sorvetes de creme! É um guloso ('es un goloso')! Aos domingos — diz após uma pausa — um velho lhe traz pastéis de carne tradicionais ('empanadas criollas'). Garantiram-me que o serve há mais de trinta anos. Eu organizei 'a linha' durante muito tempo, e agora, às vezes, o doutor ('el dotor') pede que eu me ocupe de armá-la.
—¿...?
—Chamamos 'a linha' as ordens que são dadas quando Yrigoyen sai de casa e quando abandona a Casa de Governo. Meia hora antes de partir de qualquer um dos dois pontos, o chefe de serviço recebe as instruções dos lábios do presidente. Todos os dias 'o itinerário' é alterado e nós só ficamos sabendo meia hora antes de se cumprir. Então se 'arma a linha'. Os homens são distribuídos em todos os quarteirões do trajeto a seguir e impedem que o público se aproxime do carro presidencial.
—¿...?
—No princípio empregavam-se de trinta a quarenta homens na linha, mas depois do atentado há mais de oitenta e cinco empregados de investigações às ordens do presidente. Durante 'o trajeto', cabe ao chefe de serviço fazer o papel de oficial de rota..., e, geralmente, ele utiliza uma moto da polícia ou um carro leve para se adiantar ao do presidente...
—¿...?
—Ele nos trata muito bem. Gosta muito de nós. Conversa sempre que nos encontra por perto. Interessa-se pela nossa saúde e pela família.

Eis aqui um tema interessante sobre a vida de Yrigoyen. É ou não é fã da boa mesa? Pelo que sei, posso assegurar que é um verdadeiro gastrônomo. Mas, para maior segurança, recorramos ao maître do Bristol Hotel de Mar del Plata, Francisco Guerra, que há anos o atende durante sua estadia no referido balneário.

—O presidente, embora conheça os pratos franceses mais delicados — diz — jamais os prova. Inicia as suas refeições com um pouco de presunto de York, e segue com uma boa sopa de verduras. Não é amante da carne. Prefere como prato 'forte' uma torta de milho ('pastel de choclo'), e de vez em quando um bom bacalhau. Gosta muito de doces e sobretudo do 'mil-folhas'. O sorvete, e especialmente o creme russo, encerra as suas refeições.
—¿...?
—Não. Durante a refeição não bebe mais do que água mineral...
—¿...?
—Mas..., é um grande conhecedor do champanhe... Distingue logo se é envelhecido, e se corresponde à marca que prefere...
—¿...?
—Não. Nada de enfeites. Não quer flores na mesa. Quando alguma admiradora lhas envia, ele as guarda no seu apartamento. Odeia as moscas na mesa, e por isso não quer nem flores quando come...

Hipólito Yrigoyen, nem mesmo em sua juventude, pretendeu fazer concorrência ao belo Brummell, mas, no entanto, e apesar da opinião geral que se tem dele, "sempre teve o seu guarda-roupa lotado de ternos", segundo um amigo. Após uma investigação mais do que paciente, consegui encontrar a alfaiataria na qual o atual mandatário se veste. Trata-se de um negócio instalado no andar superior da esquina da Florida com a Viamonte, cujos proprietários são Ladislas Sobleck e Cia., três ex-cortadores da casa Fourcade.

O sócio principal da firma, Ladislas Sobleck, afirma:

—Fui integrado na casa Fourcade em 1899. Fui contratado em Paris como cortador. Naquela época, a grande alfaiataria ficava na Florida com a Cangallo, onde hoje está a Gath & Chaves. Essa casa é que ditava as modas de Buenos Aires. Quando ela fechou as portas, em 1926, os três cortadores principais decidiram estabelecer-se por conta própria, e a clientela da casa até agora nos concedeu o seu favor.
—¿...?
—Don Hipólito, quando eu cheguei, já era servido pela casa Fourcade. Até essa data, quem cortava os seus ternos era Leonard Kulpers, um especialista holandês. Há trinta e um anos que eu corto para o senhor Yrigoyen.
—¿...?
—Não pense que ele é pão-duro ('tacaño') na hora de mandar fazer roupas. Já cortei cerca de cento e oitenta ternos para o Don Hipólito. Todos os anos lhe faço seis.
—¿...?
—Tem preferência pelo cinza.
—¿...?
—Não, senhor. Eu evoluí de acordo com as modas, mas ele não quer saber de nada disso. Estacionou nas modas de há cerca de quarenta anos e não deseja sair delas. Lapela curta e botões muito altos, coletes fechados e calça reta sem bainha italiana. Cortei-lhe alguns fraques de fantasia... Também casacas e vários sobretudos. Nunca quis usar smoking, e é explicável... Não frequenta festas nem jantares...
—¿...?
—Scarlatto é o encarregado de nos avisar por telefone quando devemos levar-lhe amostras e ir tirar as medidas.
—¿...?
—Manda fazer ternos de 180 pesos e é um relógio para o pagamento. Quase sempre nos manda pagar antes de receber a roupa... Por outro lado, trata-nos como amigos, pergunta-nos como vai o negócio, a família, etc.
—¿...?
—Jamais o notamos desgostoso. É de uma bondade ilimitada...

Na doca norte, o velho Antonio Giglio, italiano de origem, mas com cinquenta anos de residência no país, defende o seu ganha-pão ('el puchero') com um pequeno expresso para o transporte de bagagens.

—¿...?
—Sim, senhor, é verdade. Eu sou um dos poucos que visita o doutor ('el dotor') diariamente em sua casa. Gosta muito de mim. Também o conheço há quarenta anos e nunca lhe pedi nada.
—¿...?
—A menina Elena ('La niña Elena') também gosta de mim... Tanto a minha mulher como eu temos a porta franca todos os dias.
—¿...?
—Sim. O doutor ('El dotor') me dá os ternos que já não usa. Este que tenho vestido é dele.

E para me convencer, mostra o bolso onde está "a etiqueta", com o nome do presidente.

—¿...?
—É muito bom, senhor. Caluniam-no muito. Nunca faz mal a ninguém... Nunca se irrita...


Caro leitor, até aqui vão as minhas informações. Creio que são raros os que conhecem estes aspectos tão particulares do chefe de Estado.

O Yrigoyen que acabam de "ver" está um pouco de chinelos ('en pantuflas'), mas... posso assegurar que não tenho nada de Brousson, porquanto jamais estive a dez metros daquele que rege os destinos do país...

Fonte da transcrição: Sylvia Saítta y Luis Alberto Romero, "Grandes entrevistas de la Historia Argentina (1879-1988)", Buenos Aires, Punto de Lectura, 2002.